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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Estado ou sociedade civil?

Mais Estado ou menos Estado não é mais a polêmica, o debate central, está superado. Depois das experiências neoliberais da década de 90 e da crise especulativa e imobiliária de 2008, quem ainda tem dúvida ou defende a ausência do Estado é porque não aprendeu a lição ou tem interesse político-ideológico e econômico nessa defesa. É o caso do PSDB e DEM no Brasil.

Contudo, retomar esse debate não é o objetivo dessa postagem. Quero colocar uma pimenta nessa sopa.

Quem disse que precisamos de mais Estado e não de mais sociedade civil? A resposta imediata: queremos mais Estado para regular o mercado, investir em educação e saúde pública, para proteger o ambiente, para assegurar distribuição de renda, etc, etc. Afinal, o mercado não vai fazer isso. Meu primeiro reflexo é aceitar essa afirmação, pois existe sempre a possibilidade de derrota para as forças de direita e o risco de retrocesso político e institucional.

Mas vejam a contradição desse raciocínio: muitas vezes abrimos mão da disputa ético-política pela disputa do Estado e seus instrumentos de controle. Disputamos as orientações do Estado, seus tentáculos e aparelhos, mas não temos a mesma eficiência e coragem para disputar a hegemonia cultural e política na sociedade civil.

A situação fica pior quando a esquerda assume o governo. A tendência geral é a seguinte: os melhores quadros partidários e as melhores lideranças sociais são absorvidas pela máquina do Estado. A administração do aparelho estatal torna-se a prioridade para a esquerda. Isso aconteceu em Porto Alegre, no Governo Olívio e nos dois Governos Lula. O resultado dessa prioridade foi o enfraquecimento do partido e seu sequestro pela agenda do governo, que não é e não deve ser a agenda do partido (mais ampla e de longo prazo, propondo uma visão estratégica para a sociedade).

Esse efeito não é sentido apenas no partido, os movimentos sociais também sentem a pressão vinda dos governos. As lideranças trabalham como apaziguadoras dos ânimos dos seus movimentos, buscando o consenso e a paciência, afinal "transformar 500 anos de história não é fácil". Esse comportamento longe de fortalecer os movimentos sociais termina por atrelá-los ao governo, que não é socialista, não é popular, mas burguês e organizado para coibir as manifestações do povo. Marx dizia e estava certo: o Estado é o comitê dos interesses da burguesia. E não vai deixar de ser por causa de um governo de frente popular (as experiências na Espanha, França e Brasil, em diferentes momentos históricos, nos demonstram a verdade dessa afirmação).

Quando o Estado deixará de ser o comitê? Quando não for maior do que a sociedade civil. E quando essa sociedade civil estiver hegemonizada pelo novo bloco histórico progressista. Trata-se da instituição de um novo homem, uma nova cultura, da substituição do senso comum pelo bom senso, etc. Nesse ponto estaremos a um passo da sociedade comunista que propunha Gramsci, ou seja, a absorção da sociedade política pela sociedade civil.

Elementos dessa perspectivas estão por aí, principalmente quando defendemos o controle público sobre os fundos públicos, os mecanismos de fiscalização e a democracia participativa. O fato do Governo Fogaça não ter terminado com o OP, com a extinção pelo menos, é porque a sociedade porto-alegrense assumiu o instrumento com seu instrumento de controle da coisa pública. Fogaça e Cia tiveram que engolir o OP, fato que não impediu sua descaracterização e enfraquecimento. Mas não desapareceu.

Da mesma forma, Rigotto e Yeda tiveram que manter algum tipo de "participação popular" nos seus governos, mesmo tendo o nome de "Consulta" - o que afasta a idéia de controle ou deliberação por parte da população. Por que descaracterizar e não apenas abolir? Não se pode extinguir algo que está presente, mesmo que de forma latente, na consciência social. Poucos políticos correm o risco de terem seu nome associado a atos contra a democracia popular e isso é uma vitória da esquerda e da sociedade civil. Tal cenário não era possível 20 anos atrás.

Hoje, com o sucesso do Governo Lula, principalmente durante a crise de 2008-9, poucos políticos estão defendendo o encolhimento do Estado como faziam, a berros fortes, na década de 90. Com exceção de algumas figuras moribundas, onde estão os grandes teóricos do neoliberalismo ortodoxo? Onde está a ode ao modelo privatista? Lembram que Geraldo Alckmin fez menos votos no 2º turno do que no 1º porque a campanha de Lula colou no adversário a marca das privatizações?

Esse é o embate. Quando fazemos isso é avanço garantido, não só sobre o Estado, mas também no fortalecimento da nossa visão de mundo na sociedade.

Queremos Estado sim, mas não percamos de vista a luta por hegemonia na sociedade civil. Pois aí, nesse dia, não teremos medo de perder uma eleição, o Estado será um acessório da vontade dos trabalhadores e camponeses e não seu inimigo.

Nesse sentido, Gramsci é meu mestre.

PT, 30 anos!


O Partido dos Trabalhadores (PT) está fazendo trinta anos de história. Uma trajetória marcada pela construção do que chamamos ética da política (diferente de ética na política), ou seja, a opção pela crescente participação dos setores sociais que sempre estiveram alijados da cidadania. Nas fileiras do PT formaram-se lideranças procedentes de várias profissões e movimentos, como catadores de lixo, sem-tetos, sem-terras, pescadores artesanais, comerciantes, pequenos agricultores, educadores, ativistas gays, profissionais liberais, artistas, sindicalistas, etc. No partido estão as representações dos setores mais ativos da esquerda brasileira, desde as pastorais até os grupos revolucionários históricos. O tradicional e o novo se encontram no PT, sem obrigação de uma síntese, que elimine as divergências. Aliás, a vitalidade do partido está na sua diversidade. No PT, e não só nele, está o gérmen de uma sociedade que exige transformações profundas.


Desde 1530, quando começa a empresa lusitana de ocupar as terras “descobertas”, a política é monopólio dos setores abastados da sociedade. Pode-se dizer que antes de existir sociedade no Brasil (estrutura e identidade), já existia quem mandasse nela. Até o século XVII, os senhores de engenho “reinam” no Brasil, detendo o poder de vida e morte sobre índios, negros e agregados. Com o declínio econômico em Portugal, a partir do início do século XVIII, os brasileiros sofrem com a intensificação do parasitismo da metrópole e o fortalecimento do poder dos comerciantes portugueses. Os senhores de engenho, as oligarquias locais, tiveram que partilhar seu poder com a metrópole e seus funcionários, mas não perderam o lugar de principal força política. Formada por opressores locais ou estrangeiros, as elites, desde a colônia, sempre gozaram de privilégios e possibilidades quase infinitas de mando. Ocuparam os cargos e depois o Estado (em todos os seus estágios) como se estivessem administrando seus próprios fundos e propriedades.


Na classe trabalhadora, formada por índios, negros, mestiços e trabalhadores livres, em menor escala, grassavam a miséria, o trabalho forçado, a violência e a ausência completa de direitos políticos, econômicos e sociais. O quadro muda pouco em relação às condições de vida desses setores sociais, mesmo com o fim da escravidão, a chegada dos imigrantes, com a industrialização (século XX), entre outras mudanças estruturais. Mudam as formas de exploração, os locais onde ocorrem (crescendo os espaços urbanos), mas não muda o abismo social brasileiro. A classe trabalhadora é tutelada pelo Estado (leia-se, pelas elites), submetida à despolitização constante, ao controle ideológico por intermédio do favor e das relações de clientela. Nestes 509 anos houve rebeliões populares de todos os tipos, em todas as regiões do Brasil, sempre esmagadas pelas forças da reação elitista. E, apesar da ação sanguinária das oligarquias, pode-se afirmar que cada revolta deixava um resíduo importante na memória nacional.


É uma sociedade, portanto, autoritária, vertical, hierárquica, constituída por relações de mando e obediência. É uma sociedade que naturaliza as desigualdades. O Estado e as instituições reproduzem essas disparidades, quando não as promovem. O PT, dessa forma, nasce das contradições mais elementares da formação social brasileira, enfrentando e sendo parcialmente absorvido, como não poderia ser diferente, por essa realidade. Essa breve análise explica porque as transformações no Brasil são processos de longa duração, que esbarram em entraves muito poderosos, como os estamentos entranhados na máquina pública, que orientam seu funcionamento, organizam núcleos de resistência e reagem às mudanças. Explica também a cooptação de indivíduos ou grupos pela corrupção, visto que ética na política é uma postura individual. Além disso, essa configuração social torna impressionante a existência de um partido como o PT, com sua história, programa e democracia interna. As mudanças estão no começo, muitas serão sentidas somente nos próximos anos, como o Pólo Naval, mas já podemos afirmar que o Brasil está amadurecendo e, junto com ele, o PT.

Texto enviado para publicação no Jornal Agora, Rio Grande-RS.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Navegantes: festa católica em Rio Grande e SJN

A fé move montanhas, de fato. Também aguenta calor, sede e fome. O povo que esteve em São José do Norte, por causa da festa de Nossa Senhora dos Navegantes, provou que consegue suportar as maiores privações do mundo pela fé. E as "fés" podem ser inúmeras, neste caso é a religiosa, mas a história demonstra que também a política, a sobrevivência, a guerra e o poder movem as pessoas. Não podemos subestimar o povo. Por todo o cais e em todas as regiões da beira da lagoa apinhavam milhares de pessoas. É difícil quantificar, mas entre 30 e 50 mil pessoas podem ter assistido a procissão marítima em terra, em Rio Grande e em SJN.

Seria fantástico poder aproveitar 10% da energia popular concentrada no dia de hoje para transformar as instituições públicas, as relações de poder em Rio Grande, as leis absurdas (como a da importação do lixo, que pode ser aprovada em breve) e apontar um novo futuro para a cidade, exigindo previdência nas ações, planejamento, desprivatização dos espaços públicos, etc. Não, nada disso. A manifestação popular de hoje está canalizada para a religião e somente a Igreja pode direcionar essa energia. Atualmente, em Rio Grande, não tem feito essa opção - o que não se pode afirmar de outras paróquias e bispados no restante do país.

Durante décadas a Igreja Católica tem sido a principal força política brasileira, as suas duas alas sustentaram e alimentaram as forças políticas no país: de um lado, a teologia da libertação e os setores liberais supriram a esquerda de militantes, principalmente o PT - as pastorias da juventude, operária, da terra, da infância, etc., foram o campo de formação dos atuais quadros políticos da esquerda brasileira; por outro lado, o setor Tradição, Pátria e Família (TPF), a ala conservadora (e a ultra-conservadora, em menor escala no Brasil) alimentaram os setores golpistas de direita, que, inclusive, foram ajudados pela CIA para derrubar João Goulart em 1964. Enfim, não se pode negar o poder e a influência da Igreja, independente do lado que você esteja.

É a Igreja Católica (e em crescimento, os protestantes) que impede o desenvolvimento de discussões sérias sobre temas importantes, como: aborto, controle de natalidade (contraceptivos), casamento homossexual, educação sexual nas escolas, Estado laico, entre outros. Por outro lado, impulsiona temas de relevância, como: direitos humanos, reforma agrária, redução da jornada de trabalho, proteção dos povos indígenas (aliás, desde o século XVI, com a chegada dos jesuítas - a melhor definição de "proteger para explorar"), etc. O problema da Igreja é quando confunde a religião com o Estado e dificulta o debate de questões que contradizem seus dogmas. A república e a democracia necessitam desse debate aberto e público e nenhuma instituição está acima dele. Ao esquecer seu papel temporal comete absurdos, como a passagem infeliz do Papa pela África, em 2009, pedindo que as pessoas não fizessem sexo fora do casamento e que, assim, não precisavam utilizar preservativos. Ele poderia dizer isso em qualquer país católico ortodoxo europeu (já acho um absurdo), mas em países africanos, onde a AIDS é uma epidemia, a atitude é criminosa. Como devem reagir as autoridades de saúde desses países? Vão desautorizar o Papa e enfrentar as comunidades católicas de seus países? Dessas contradições vivem os católicos.

Enfim, repito: no Brasil, a política ainda se confunde com a religião. Abaixo as fotos de uma das maiores manifestações religiosas de Rio Grande, comparável somente ao dia de Iemanjá (outra força política de respeito, apesar de não ter tanto status e funcionar apenas na calada da noite - onde os católicos do dia "batem cabeça").



Fotos: ARP

A maior de todas as batalhas, por Emir Sader

O maior debate contemporâneo, aquele que reaparece cotidianamente, que praticamente cruza todos os maiores problemas que enfrentamos, é o da solidariedade. O aspecto mais negativo do vendaval avassalador com que o neoliberalismo tratou de se impor em nossas sociedades é o egoísmo. Egoismo, individualismo, consumismo contra solidariedade, justiça, direitos – esta é maior batalhar ideológica e de comportamento, no Brasil e no mundo, atualmente.

As expressões da postura egoísta são muitas: FHC dizia que no Brasil haveria milhões de “inimpregáveis”, isto é, de gente - segundo essa visão – demais, que não cabem “no mercado” – que é o critério da direita para saber quem cabe e quem não cabe. A direita espanhola usa a frase “Não cabemos todos”, para tentar excluir aos imigrantes do alistamento nos serviços sociais.

Se trataria de governar para uma parte da sociedade – um terço, no máximo um pouco mais -, porque se fundam no critério do que cabe no mercado. Não pensam a sociedade como um todo, filtram o que o mercado torna possível, condenando o resto ao abandono.

No Brasil de hoje, um país inquestionavelmente menos injusto do que era antes do governo Lula, se deveria contar com amplo apoio na questão mais importante que o país enfrenta: de ser uma sociedade para todos. Não somos um país pobre, pelos padrões internacionais, mas somos o país mais injusto, do continente mais injusto.

Injusto, não pela miséria generalizada, mas pela distribuição de renda super desigual, entre os pólos de riqueza e de pobreza. O tema do “país para todos” deveria ser o critério essencial para definir a natureza do Brasil hoje, a quantas andamos, que futuro queremos para o país.

Porém é de temer que o critério da situação de cada um – especialmente nos setores de classe média – seja o essencial. Enquanto a economia crescer e atender as demandas de grande parte da população, as pessoas se sentem contentes, apóiam o governo Lula. Não parece que a extensão dos direitos aos até aqui sempre excluídos, os processos de distribuição de renda, o aumento sistemático do nível de emprego formal, entre outros aspectos inegavelmente positivos, sejam os critérios básicos para nortear o ponto de vista político das pessoas.

Para a direita, é claro, se trata de tentar impedir que esse processo prossiga. Seu maior fantasma é o de uma adesão duradoura do povo a projetos de justiça social. Ela se ampara no mercado e nos seus critérios seletivos e excludentes.

Para a esquerda, se trata de travar a maior de todas as batalhas: a luta pela construção de idéias solidárias, de fraternidade, de justiça, fundadas no direito de todos. Sem isso, se poderá avançar, conforme o sucesso econômico e a possibilidade de extensão do acesso a bens para todos. Porém, nosso critério tem que ser o da prioridade radical de incorporação aos direitos básicos dos pobres, da grande maioria, até aqui sempre marginalizada, do Brasil.

Ajudar a que tomem consciência dos seus direitos, de quem são seus inimigos, de como podem e devem se organizar para garantir seus interesses e a continuidade dos projetos que os beneficiam. Ajudar a que sejam o sujeito fundamental na construção de um país justo, solidário, para todos. Aí se joga o futuro do país: na superação do egoísmo, do consumismo, dos critérios de mercado, pelos de justiça, de solidariedade, de direito para todos.

Desempenho dos maiores títulos do Brasil caiu no ano de 2009

Caiu 6,9% a circulação somada dos 20 maiores jornais diários brasileiros em 2009. Apenas seis conseguiram melhorar seus desempenhos de acordo com dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC). São eles: Daqui (31%), Expresso da Informação (15,7%), Lance (10%), Correio Braziliense (6,7%), Agora São Paulo (4,8%) e Zero Hora (2%). Mantiveram-se estáveis Correio do Povo, A Tribuna e Valor Econômico, que encerraram o ano passado com circulações bem próximas às do fechamento de 2008.

Onze títulos viram seus números encolherem durante 2009. Os dois que mais caíram foram os do Grupo O Dia, do Rio de Janeiro: O Dia (-31,7%) e Meia Hora (-19,8%). Também tiveram quedas Diário de S. Paulo (-18,6%), Jornal da Tarde (-17,6%), Extra (-13,7%), O Estado de S. Paulo (-13,5%), Diário Gaúcho (-12%), O Globo (-8,6%), Folha de S. Paulo (-5%), Super Notícia (-4,5) e Estado de Minas (-2%).

Não houve alterações significativas nas posições do ranking, a não ser a evolução contínua de títulos populares como o Dez Minutos, de Manaus, que estreia na 17ª posição, com média diária de 60 mil exemplares – não considerados na conta de queda de 6,9%, pois foi lançado no final do ano passado.

A liderança continua com a Folha de S. Paulo (média diária de 295 mil exemplares), seguida por Super Notícia (289 mil), O Globo (257 mil) e Extra (248 mil). Em quinto lugar está O Estado de S. Paulo (213 mil), à frente do Meia Hora (186 mil) e dos gaúchos Zero Hora (183 mil), Correio do Povo (155 mil) e Diário Gaúcho (147 mil). O top 10 se completa com o Lance (125 mil).

A informação é da coluna Em Pauta, publicada na edição 1394 de Meio & Mensagem, que circula com data de 1º de Fevereiro de 2010.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Comentário sobre o FSM

Estou participando do Fórum Social Mundial 10 anos desde o primeiro dia (25/01) e as minhas impressões são conflitantes, quero compartilhar com meus amigos-leitores:

:: a descentralização pelas cidades da Grande Porto Alegre foi bom porque levou o FSM para as comunidades mais pobres da região, tirando intelectuais e estudantes da capital. Penso que deu um tom de realidade para as discussões, pois teve mais participações locais, fato percebido pelas programações das cidades metropolitanas - existem muitas oficinas e debates propostos por entidades locais;

:: por outro lado, ficou evidente que caiu a organização do evento. A descentralização fez com que as informações estivessem fragmentadas, a programação oficial foi chegando aos poucos. No caso específico de uma oficina que participei, o painelista estava em duas atividades ao mesmo tempo, resultado: a atividade atrasou 1h pelo menos. Sorte que o povo é criativo e consegue dar a volta por cima, mas fica cansativo e frustrante pensar que depois de 10 anos essas coisas ainda ocorram;

:: a descentralização também provoca um sentimento de encolhimento. Um sintoma disso foi a fala do Lula, apesar do Gigantinho estar lotado, não ficou gente do lado de fora, como em anos anteriores. Pelo menos 15 mil pessoas estavam no ginásio. Contudo, lembro da presença do Chavéz (2003 ou 2005) e de ter ficado assistindo por um telão, sob um sol abrasador, porque não cabia mais ninguém no Gigantinho. Provavelmente isso é apenas um sentimento (muito forte para quem viveu, por exemplo, o FSM de 2005, onde estiveram presentes 150 mil pessoas circulando pela orla do Guaíba), estou aguardando para ouvir o número de participantes inscritos;


:: sinto também que existe um tom cabisbaixo de algumas lideranças do FSM, dizendo que 10 anos se passaram e o evento não conseguiu sair da discussão para a prática. Na verdade o FSM cumpre o destino traçado pelos próprios organizadores: lembro dos primeiros fóruns em que a mídia cobrava atitudes, soluções, propostas consensuais por parte dos movimentos e esquerdas presentes e os organizadores diziam que o evento era para reunir, debater, propiciar o espaço de troca de experiências entre os diversos atores sociais e que não tinha compromisso com a apresentação de propostas definitivas para os problemas. Sei que o FSM passou por reavaliações, inclusive sobre seu papel propositivo e pró-ativo, mas essa marca de nascença persegue o evento. Não tenho dúvida que os avanços na América Latina são fruto da integração propiciada pelo FSM, sem desprezar obviamente as conjunturas nacionais (que são, efetivamente, as causas finais). Agora é certo que o Fórum pautou outros debates no cenário mundial, fazendo o contraponto a Davos e ao discurso único neoliberal. Reunir um monte de "vermelhinhos" e outros nem tanto, uma cidade governada pelo PT, num país governado por um discípulo neoliberal (FHC), foi um fato extraordinário por si só. Somente com a vitória do Lula e de outros governos na América Latina é que o FSM começou a se colocar a tarefa de agir, afinal as condições pareciam abertas para tanto. Enfim, mesmo que não tenhamos conseguido derrotar o neoliberalismo através do Fórum, enquanto instrumento principal, o evento permitiu que fosse traçado um quadro mais completo do que significa esse modelo de destruição da vida e das nações - em outras palavras, se hoje temos uma noção clara do que é o neoliberalismo foi graças as conversas com indianos, argentinos, uruguais, peruanos, ingleses, norte-americanos, chilenos, etc;

:: a questão positiva é que os debates continuam interessantes. E esse é o grande atrativo para mim. É verdade que algumas coisas são conhecidas, abordagens ouvidas em eventos anteriores, etc., mas sempre existe algum argumento ou pensamento que se pode aproveitar para outras oportunidades e reflexões. Por isso sempre é produtivo ouvir, ouvir e ouvir. Já pude assistir alguns nomes de peso, como David Harvey, referência na análise do império americano, Paul Singer e Márcio Pochmann. Sobre essas palestras vou escrever em breve. Ainda vou assistir Ladislau Dowbor, Boaventura de Souza Santos, Pepe Mujica e se conseguir Emir Sader. Além disso, encontrei um companheiro blogueiro que admiro muito e sou leitor assíduo, o Renato Rovai.

Gosto bastante dessa agitação, como se percebe. O Fórum é estimulante, tenho que admitir. Preocupante também, principalmente quando fica alisando o leão faminto, achando que ele pode ser domesticado, pensando que é possível burlar o instinto do animal (ele não pode e não quer ser domesticado por nós! Vai lutar!). Essa coisa do capitalismo humanizado é o que me mata (um dia comento minha opinião sobre). Subtraindo esse fato, minha agenda volta cheia de boa anotações.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Para entender Rio Grande é preciso entender o Brasil

Estou lendo e relendo alguns clássicos da história e da filosofia brasileiras para entender as coisas que andei vendo nos últimos meses. Na minha cabeça, se entender como funciona a sociedade autoritária, sua formação e atual configuração posso compreender a política da cidade do Rio Grande. É a representação fiel do que Marilena Chaui chama de sociedade vertical, da tutela, da clientela e, portanto, autoritária.

Terminei de ler o livro "Brasil: mito fundador", da Chaui (minha autora preferida), li trechos do monumental "Os donos do poder" de Raymundo Faoro, uma obra referência para quem quer entender o Brasil, e agora estou empenhado na leitura de "Evolução política do Brasil", de Caio Prado Jr. Tempos atrás tinha lido "Formação econômica do Brasil", também de Caio Prado, mas terei que reler.

Estou pensando seriamente em escrever um pequeno ensaio, juntando todos esses elementos, uma espécie de manual ou material de referência para usar nas aulas, escrever textos e pensar sobre as barbaridades que vemos em Rio Grande.

Recomendo aos amigos que estão inquietos e indignados, pois essas leituras nos ajudam a colocar nossa realidade no interior de um processo histórico concreto, que tem início, ponto de partida, desenvolvimento e características próprias e, como tudo na história, possibilidades de superação.

Lúcia Hippolito em momento Vanusa (bem feito!)


Ao ver esse vídeo ri de satisfação! Sempre achei que essa condenada bebia para dizer as coisas que diz no rádio e televisão, só uma pessoa de porre para ter coragem para fazer as coisas que ela faz.

Se parece sem sentido a minha indignação, gostaria que todos tivessem visto o comentário dela num desses programas do canal GNT - Globo (não sei o nome, "Ponto G", "Estúdio I ou G", sei lá), no primeiro dia do ano de 2010 (ataque do primeiro ao último dia), onde afirmou: "a Ministra Dilma tem uma relação cerimoniosa com a verdade". Não é um jeito sequer sútil de chamar alguém de mentiroso(a).

Depois disso passei a odiar Lúcia Hippolito (é verdade que não amava). Não só porque atacou a ministra Dilma de forma vil e baixa, mas porque visa a transformar a campanha difamatória do PSDB, que não passa de discurso e factóides, em fato político concreto, em verdade (aquela velha história: uma mentira contada várias vezes...).

Foi um absurdo. Em meio ao noticiário do desastre no Rio de Janeiro, que matou dezenas, com o país inteiro preocupado e estarrecido com o ocorrido, fiquei sentado na frente da TV dizendo: "já está demorando, quem vai atacar primeiro, ó... ó... lá vem, lá vem...". E nada... Quando a colunista-comentarista-do-mal se empolgou, chamei os que estavam perto (a família), pedi silêncio e profetizei: "é agora, agora vai!" (com punho em riste, como se torcesse no futebol). E não é que foi! Escutei a primeira pérola do ano vinda de Lúcia Hippólito, ela não me desapontou! O ano promete e gente como a colunista estará disposta a fazer o serviço sujo do PSDB.

Um tal de Cacau Menezes, do Grupo RBS, colunista do Diário Catarinense, ao estilo do que faz Hippolito, também deu o tom do que vai ser o período eleitoral aqui no sul. Escreveu em sua coluna:

* Altas fontes


Fiquei sabendo ontem, de altas fontes, que o presidente Lula anda de namorico com a ex-modelo Luiza Brunet, e que por isso seu casamento com Marisa está por um fio. Aliás, os dois já estariam separados.

Se for verdade, Cacau sai na frente de novo. Se for mentira, só o tempo dirá.


Afinal, se FHC teve dois filhos fora do casamento, Lula também tem que ter algo de sujo na sua vida matrimonial... Devagarinho essa pode ganhar força e virar manchete de jornalão. Aliás, veja a desfaçatez do colunista maldoso: se estiver certo que bom! se estiver errado, só o tempo dirá! Como assim? Não existe confirmação da estória? A informação das "altas fontes" não vai ser checada, como se faz no jornalismo sério? Quer dizer que a dúvida ficará pairando? Por que Luiza Brunet e não a Gisele? O que comprova Lula e Marisa estarem separados? Quanta desfaçatez.

Da minha humilde parte, não aguentei e entrei no blog do dito cujo para xingar. Tenho feito isso com frequência: no blog do Noblat, do Reinaldo Azevedo, da Lúcia e agora desse Cacau. Não disse palavrões, nem mandei longe, como bem merecem, mas sempre afirmo que eles não enganam ninguém, que o lado deles já é conhecido e as táticas são nojentas. Acho que todos que se sentem ofendidos direta ou indiretamente por esse tipo de porcalismo (e não jornalismo) devem se manifestar inundando as caixas de emails deles com críticas e, o principal, cancelando assinaturas dessas empresas.

Só um exemplo: quando a Abril começou a enviar a Veja de graça para minha casa, um método promocional (não sei como me acharam, talvez pelo cadastro de alguma editora de livros didáticos), liguei para o 0800 e avisei que não queria receber nada, nem de graça, muito menos Veja. Enviei email para o setor de vendas da empresa, xingando. Passaram meses... voltaram a fazer o mesmo e, de novo, liguei, mandei email e reafirmei meu completo desprezo por essa revista. A pobre da atendente ouviu: "nem para forrar gaiola...". Sei que ela não é paga para ouvir isso, mas na raiva acaba-se descontando no primeiro que está na frente. Se tivesse chance pediria desculpas à moça e, claro, reiteraria tudo que disse sobre a revista.

Nós temos o poder.

Apreciem o vídeo, é pura risada e deleite.



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sábado, 16 de janeiro de 2010

Cônsul racista representando um país de maioria negra

Fora Cônsul racista do Haiti! Não precisamos de mais um racista no Brasil.

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